Desgaste físico encoraja uso da droga


Estudo mostra que trabalhadores que já eram dependentes de álcool tornaram-se totalmente viciados após usar crack
Tisa Moraes


A lida nos canaviais nunca foi fácil. Os movimentos repetitivos, a força demandada para efetuar o corte da planta, o calor provocado pelo sol forte e a agilidade necessária para alcançar o máximo de eficiência são algumas das exigências para que um bóia-fria consiga sobreviver minimamente de seu trabalho.

A atividade extenuante, quase sobre-humana, parece estar diretamente ligada ao uso de substâncias alucinógenas pelos lavradores, conforme avaliação do psicoterapeuta Edson Aparecido Barboza. Ele realizou um estudo sobre a migração do crack para o Norte e Nordeste brasileiro, levado por trabalhadores que retornaram para aquelas regiões depois de uma tentativa frustrada de ganhar a vida nos canaviais paulistas.

“O problema é que eles tinham um controle um pouco maior sobre o uso da maconha e do álcool. Quando experimentaram o crack, se tornaram totalmente viciados”, observa.

De acordo com o vice-presidente do Sindicato dos Empregados Rurais de Jaú, José Luiz Stefanin Jr., quando descobertos, muitas vezes os lavradores resistem a admitir o vício, o que dificulta o encaminhamento para tratamento em clínicas especializadas.

“Nesta semana, recebi no sindicato um cortador de cana que está afastado do trabalho devido à suspeita de uso de drogas e álcool, mas ele não assume. Como o consumo de drogas é um ato ilícito, acaba sendo difícil, para nós, identificar de que maneira isso ocorre dentro dos canaviais”, lamenta.

Ele conta que, há duas semanas, um cortador de cana do distrito de Potunduva, em Jaú, foi dispensado porque fiscais do alojamento em que ele morava teriam encontrado drogas entre os seus pertences. O trabalhador, provavelmente por medo de perder o emprego, também negou ser usuário.

Agilidade é dinheiro

Stefanin Jr. reconhece que o trabalho no campo é árduo e os alojamentos, muitas vezes, precários. A colheita média diária de cada cortador, que era de cinco toneladas há menos de dez anos, atualmente bate a casa das dez toneladas.

“É um trabalho que demanda um esforço físico muito grande. Essa exigência se dá porque os cortadores recebem por produção”, detalha.

Nesse sistema, o bóia-fria arrecada míseros R$ 2,71 por cada tonelada colhida. Para conseguir sustentar a família, com um salário médio de R$ 600,00, trabalha das 6h às 16h, com uma hora e meia de intervalo para almoço e mais duas pausas de dez minutos exigidas pelo Ministério Público do Trabalho.

“Mas muitas vezes, o trabalhador acaba optando por não fazer as pausas, para não atrasar o seu serviço. Ele sabe que, quanto mais cortar, mais ele vai ganhar”, pondera o sindicalista.

E, pelo menos a curto prazo, ainda não existe perspectiva de mudanças neste panorama, conforme avalia Eduardo Porfírio, diretor da Federação dos Empregados Rurais Assalariados no Estado de São Paulo (Feraesp). “No momento, não há possibilidades de avanço. É um trabalho duro, mas até que se consiga um salário fixo adequado, os cortadores de cana vão continuar preferindo trabalhar neste sistema por produtividade”, analisa.

Na região de Bauru - que abrange municípios como Jaú, Brotas, Bocaina, Igaraçu do Tietê, Mineiros do Tietê, Barra Bonita, Dois Córregos e Lençóis Paulista -, há aproximadamente 20 mil trabalhadores que dependem deste tipo de trabalho para subsistir.

O terapeuta Edson Barboza contribuiu para este
Artigo publicado em 15/06/2008 no Jornal da Cidade de Bauru